“As pessoas saem do bairro, mas o bairro não sai delas”

Aprendi esta frase com um amigo meu, advogado português radicado em Macau há longa data. Um homem bem formado, com bom gosto.

A frase ficou-me na cabeça por ser uma grande verdade. E por apresentar um princípio aplicável ao comportamento ignóbil de muitos que vejo aqui à minha volta.

Vivo numa terra onde tudo é decidido em torno do dinheiro. Desde o negócio de grande envergadura à compra do detergente no supermercado.

E aqui existem duas escolas aparentemente opostas que não são necessariamente contraditórias por revelarem, fundamentalmente, o mesmo amor pelo dinheiro.

São eles a maximização do rendimento, na procura do melhor value for money, que leva à compra daquela camisola que não era necessariamente bonita, mas que valeu a pena comprar por causa do desconto.

Ou então o abandono total desse princípio, para se seguir a via do absoluto esbanjamento com vista à suprema extravagância.

Em tempos vi-me obrigado a passar o dia com uns executivos de calibre. Gentlemen de meia idade, sofisticados, bem vestidos, com charme e estilo.

Falámos de vinhos, de whisky, de espargos brancos da Alemanha, dos talheres que a família real Britância usa. Sabiam de cor os anos das melhores colheitas de vinho.

Coisas assim.

Pessoas habituadas ao high-end finesse.

Uma estirpe que gasta sem esforço 10 mil Euros numa refeição servida em recinto privado por um chef Michelin de 3 estrelas.

Rotinas que servem de bom conversation starter nos encontros sociais.

Impressionante para quem se deixa impressionar por essas futilidades.

Entretanto fomos almoçar.

E verifiquei que nenhum dos tais gentlemen estava munido dos table manners adequados à classe social que representam, aos assuntos que abordam, aos fatos e ao perfume que usam.

Surpreendido? Não. Já vi muito na minha vida, sobretudo por essas bandas.

Enquanto sorviam ruidosamente o creme de lagosta e o esparguete com trufas, a conversa manteve-se naqueles assuntos que já sabemos.

Moral da coisa toda

O meu antigo chefe em Portugal dizia: Antigamente quem tinha dinheiro tinha formação. Hoje é ao contrário.

A minha mãe costuma dizer: Podes comprar o melhor forno, mas se a massa não for boa, o pão não fica bom.

Na minha incapacidade verbal, limito-me a dizer: Há qualidades que nascem contigo e que não podem ser compradas. Se não as tens, não as terás nunca.

Finalmente, Iris Apfel deixou-nos: Fashion you can buy, style you possess.

Mas identifico-me mais com a que deixei em epígrafe, por ser mais pedestre.

As pesssoas saem do bairro, mas o bairro não sai delas.

Vejo-me obrigado, por vezes, a conviver com pessoas deploráveis.

E sinto-me genuinamente cansado por isso.

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